Antes de tudo, queria dizer que essa história não é nem um pouco engraçada, então tenham consideração, pois trata-se de um trauma de infância. Sempre fui muito solidária, comovia-me facilmente com algumas situações do nosso cotidiano, como a pobreza, fome, abandono, entre outras...
Tudo aconteceu em meados de 2002. Ao caminhar todos os dias pelas ruas de Laranjeiras, com destino a escola, me deparava com um jovem morador de rua, eu como meus 8/9 anos, ele com seus 18/19, por aí. Aquela situação me intrigava muito, eu sentia profunda pena, mais um jovem perdido nas ruas, sobrevivendo com esmolas. Dias e dias passaram-se e ele sempre no mesmo lugar - largado num canto qualquer de alguma marquise -, com o mesmo discurso - tia me arranja uma moeda, por favor -, a mesma feição - muito magro, negro, aspecto sujo, enormes cabelos crespos. Situação perfeita pro meu espírito solidário operar, mesmo contra minha vontade. Não aguentei ver aquele menino sozinho, sem ter o que comer, não sabia como ajudar, mas pra criança o pouco parece muito. Foi aí que em uma das minhas idas a escola, com uma amiga - coincidentemente chamada juliana - resolvi parar em frente a ele, não sabia exatamente o que ia fazer, mas parei! Juliana dizia-me: "Ju, vamos embora! Anda. Vamos sair daqui". Eu insistentemente teimava em ficar. E com meu olhar fixo a ele, lembrei que tinha algo na mochila, ao tirá-la das costas, antes mesmo de pegar o tal "algo", ao perceber que eu não parava de olhar para ele, ele arregalou os olhos e perguntou : " Tá olhando o que ? " (raiva reinava em sua face). Eu, surpresa, não sabia o que dizer, o que fazer, como agir. Fiquei parada, sem reação. Antes de continuar, saibam que eu tinha sério problemas dentários desde aquela época, sim... eram bem piores que atualmente. Continuando... Ao ver que eu estava parada sem reação em sua frente, ele olhou para mim, e sorriu. Eu, criança feliz e bem educada retribui o sorriso, e voltei empolgada, a mexer na mochila. Foi aí que ele inesperadamente falou algo que mexia com meu psicológico : " seu dente, HAHAHA, é torto! HAHAHA ". Todo meu espírito de caridade sumiu, e eu que passei a ter o aspecto raivoso na face, fechei a mochila. Olhei pra ele e falei: " DANE-SE! O PROBLEMA É DE QUEM? MEU! " (atitude inconsequente, foi apenas uma lei da física operando, toda ação gera uma reação). Eu não esperei sua reação. Ele levantou com toda fúria e disse: " É O QUE ? ". Minha reação foi " CORREEEEEEEEEE JU, CORREEEEEEEEEEE ". Acho que nunca corri tanto em minha vida, bati todos os meus recordes possíveis. Desesperada, eu corria e gritava " aaaaaaah me ajudem , me ajudem ". Juliana dizia : " calma Ju, calma! Ele ja foi ". Eu não ouvia e só corria. Ao ver que minha amiga tinha sumido , gritei: " aaaaaah salvem a juu, ela foi pega por ele ". Ninguém entendia nada. Depois de um tempo quando encontrei com a Ju, ela nervosa perguntou : " Cara, o que você queria com ele ? ". E trémula respondi : " Eu só queria ajudar, queria dar a ele o que eu tinha sobrando, minha moeda de 10 centavos " :SPois é... não deixem-se levar por impulso.